
Hans Staden era um aventureiro alemão, que fez duas viagens para o Brasil, sobre as quais ele publicou um livro, após de voltar para a Alemanha (Zwei Reisen nach Brasilien), um dos primeiros relatórios sobre o Novo Mundo, acessível a um público maior.
Os seguintes trechos foram extraídos da segunda publicação em português, Portinari devora Hans Staden (da Editora Terceiro Nome, São Paulo, 1998) que conta com ilustrações de Portinari e é mais completa do que a primeira edição disponível (Viagem ao Brasil).
Foi no dia 18 de novembro de 1549 que Staden naufragou no porto de Superagüi e ele relata o seguinte:
Certo dia, era 18 de novembro, o timoneiro calculou a distância ao pólo. Encontrávamos-nos a 28 graus de latitude. Então procuramos terra a oeste a avistamos terra no dia 24 do mesmo mês. Tínhamos ficado seis meses no mar, muitas vezes em situações de grande perigo.
Quando finalmente nos aproximamos da costa, não conseguimos encontrar o porto e os sinais indicados pelo primeiro timoneiro da esquadra. Também não deveríamos nos arriscar a entrar em um porto desconhecido, e ficamos navegando ao longo da costa. Levantou-se então um forte vento e por temermos naufragar nos arrecifes, amarramos barris vazios uns aos outros, colocamos pólvora dentro deles, tapamos os orifícios de nossas armas e amarramos aos barris. Ao naufragar, se alguns de nós se salvassem, encontrariam suas armas após as ondas jogarem os barris no litoral. Navegamos contra o vento, esperando, assim, afastar-nos da costa.
Mas de nada adiantara. O vento empurrava-nos contra os arrecifes, que ficavam encobertos quatro braças sob a superfície, e enormes ondas jogavam-nos contra a costa. Pensamos que morreríamos todos juntos.
Foi então, que já estávamos perto dos arrecifes, que Deus mandou que um dos nossos companheiros descobrisse um porto. Entramos e nele vimos um pequeno navio. Ele fugiu e escondeu-se atrás de uma ilha, de modo que perdemos de vista, sem saber de que navio se tratava. Mas não o perseguimos, em vez disso baixamos âncora. Agradecemos a Deus por ter nos ajudado em nossa desgraça, descansamos e pusemos nossas roupas para secar.
Deviam ser seis horas da tarde quando baixamos âncora. No início da noite aproximou-se do navio um grande barco repleto de selvagens. Queriam falar conosco, mas nenhum de nós podia entender a língua que falavam. Demos-lhes algumas facas e anzóis, e eles partiram. À noite, de novo veio um barco cheio de gente, e entre eles estavam dois portugueses que nos perguntaram de onde éramos. Ao contar-lhes que vínhamos da Espanha, eles disseram que deveríamos ter um timoneiro muito habilidoso, por entrarmos assim no porto, pois o porto era-lhes conhecido, mas com uma tempestade dessas eles não teriam conseguido entrar. Então narramos-lhes com precisão como o vento e as ondas quase nos fizeram naufragar, como estávamos certos de que iríamos morrer, e que de forma inesperada descobrimos a entrada e Deus imprevisivelmente nos ajudou, salvando-nos do naufrágio. Tampouco sabíamos onde estávamos.
Ao ouvir isso, ficaram espantados e agradeceram a Deus. O porto no qual estávamos chamava-se Superagüi e estava a cerca de 13 milhas de ilha de São Vicente, que pertencia ao Rei de Portugal. É lá que eles moravam, e as pessoas que vimos no pequeno navio fugiram porque nos tomaram por franceses.
Perguntamos então a que distância ficava a ilha de Santa Catarina, para onde queríamos ir. Eles responderam que poderia ser 30 milhas ao sul. Lá vivia uma tribo de selvagens chamados Carijós, com os quais deveríamos ter muito cuidado. Os nativos da região de Superagüi, os Tupiniquins, no entanto, eram amigos, e deles nada tínhamos a temer.
Finalmente perguntamos a que
latitude ficava Santa Catarina, e a informação deles, de que ficava a 28
graus, estava correta. Ainda nos descreveram detalhes para que pudéssemos
reconhecer aquela terra.

Sobre a ilustração: A Baía de Paranaguá foi representada em um mapa pela primeira vez numa xilogravura no livro de Hans Staden de Homberg (Staden, 1941, 1974; Lobato, 1945), do ano de 1557, como "Bahia Suprawa" (Superagui), para dentro da qual foi o navio de Staden arrastado por uma tempestade em 1549, tendo encontrado índios e portugueses naquela região. Neste documento (Figura 1) aparece a Ilha das Peças, representada como península e mais três ilhas, que podem ser identificadas como a Ilha do Mel, a da Cotinga e a Rasa da Cotinga. Além disso, é esboçada a linha de costa, desde o Pontal do Sul até a ponta de Caiobá, já na entrada da Baía de Guaratuba. As técnicas cartográficas da época, entretanto, não permitiam obter uma grande precisão para a elaboração destes mapas, mas foram de grande valia para os navegadores que vieram posteriormente explorar esta região (Krueger et al., 1998).
Há ali pequenos insetos parecidos
com pulgas, mas um pouco menores e que chamam de tunga na língua dos selvagens.
Surgem nas cabanas devido à sujeira das pessoas e grudam nos pés. Apenas coçam
quando penetram na carne, e comem a carne sem que se possa especialmente
senti-los. Quando não se presta atenção e não são logo extraídos, formam
um nicho arredondado como uma ervilha. Quando se percebe e logo se tira o
animalzinho, fica um pequeno buraco na carne, do tamanho de uma ervilha. Quando
cheguei nessa terra com os espanhóis, não tardou muito para eu ver como os
insetos deixaram em horrível estado os pés de alguns de nossos camaradas que não
lhes deram atenção.
Também muitos pássaros
estranhos vivem ali. Uma espécie, o guará piranga, busca sua alimentação no
mar e faz seu ninho nos arrecifes perto da costa. Eles são do tamanho de uma
galinha, têm um bico alongado e grandes pernas como as garças, embora menos
longas. O guará piranga tem uma particularidade: as primeiras penas que nascem
nos filhotes são de cor cinza clara. Quando atingem a idade de voar, ficam de
cor cinza escura. Depois mudam de cor e o pássaro inteiro fica tão vermelho
quanto é possível ser vermelho. E assim permanece. Suas penas são muito
apreciadas pelos selvagens. (Obs:
o guará hoje está extinto na região, mas deve ter vivido lá em abundância,
já que existe a cidade de Guaraqueçaba).
Os morcegos são maiores do que os que temos aqui na Alemanha. Voam à noite nas cabanas e nas redes onde as pessoas dormem. Quando percebem que alguém dorme e não se defende, voam em direção aos pés, mordem e enchem a boca de sangue, ou ainda mordem na testa e depois vão embora. Quando estive entre os selvagens, muitas vezes arrancaram-me pedaços dos dedões. Quando acordava, via o dedão sangrando. Mas normalmente mordem os selvagens na testa.


Last modified on Friday, april 05, 2002