Autores:
INGE ANDREA NIEFER. Doutoranda do Curso de Pós-Graduação em Engenharia Florestal, Área de concentração: Economia e Política Florestal, UFPR. Tel. 041/354-8795; e-mail: inge@xmail.com.br
JOÃO CARLOS GARZEL LEODORO DA SILVA. Dr. em Economia Aplicada, Prof. do Curso de Eng. Florestal da UFPR. Tel. 041/350-5707; e-mail: garzel@agrarias.ufpr.br
RESUMO
O termo "ecoturismo" surgiu na década
de '80 e ainda não há um consenso sobre sua definição.
Isto dificulta a avaliação das viagens oferecidas como sendo
ecoturismo. Este trabalho consiste numa revisão de literatura sobre
a definição do termo ecoturismo e as tentativas de várias
instituições de regulamentar os critérios básicos
para este segmento importante do mercado de turismo. São apresentados
os códigos éticos de algumas organizações ligadas
ao ecoturismo e propostas de critérios para a criação
de um selo verde para serviços turísticos. Estes códigos
e selos verdes são de grande importância para o ecoturista
e outros interessados na avaliação do comprometimento das
operadoras turísticas com a conservação do meio-ambiente.
Palavras-chave: Ecoturismo, turismo sustentável,
código de ética, meio-ambiente, conservação,
marketing ambiental, consumidor.
1. Introdução
Nos anos 80 surgiu a denominação "ecoturismo" para um certo tipo de viagens especializadas ligadas à natureza. A crescente procura por experiências turísticas em ambientes naturais relativamente intactos fez com que o ecoturismo se tornasse o segmento do mercado internacional de turismo com os maiores índices de crescimento.
CASTILHO & HERRSCHER (1997) relatam que o ecoturismo gera bilhões de dólares por ano e que ele está crescendo a taxas de 10% - 15% a.a. Somente em 1990 foram gastos US $ 220 bilhões em atividades ecoturísticas. O número de chegadas em países desenvolvidos cresce cerca de 3,5 % a. a., enquanto o hemisfério Sul mostra um crescimento de 6 % a. a., devido às suas riquezas naturais e suas culturas indígenas.
Apesar de significar uma importante contribuição econômica, principalmente para os países emergentes, ainda há muita discussão e confusão sobre o termo "ecoturismo" entre as operadoras turísticas, os consumidores e outros interessados.
Dentro do contexto do marketing ambiental, uma especialidade relativamente nova do marketing, a palavra "ecoturismo" tornou-se um rótulo desejado e está sendo utilizado de forma abusiva por inúmeras operadoras de turismo para fazer uma "lavagem verde" dos seus serviços (HEADLY, 1998; HOW GREEN CAN YOU GET? 1998; NORMAN et al., 1998; BUCKLEY, 1997; KAYE, 1997). Este uso indiscriminado do termo "ecoturismo" pode fazer com que um conceito valioso corra perigo a se tornar um clichê vazio.
Para evitar isto torna-se imprescindível a definição de critérios e padrões para que o consumidor possa avaliar se essas viagens, comumente chamadas de "eco-trip" ou "eco-tour", oferecem realmente experiências ecoturísticas e se as operadoras agem de uma maneira ambientalmente responsável (HEADLY, 1998; NORMAN et al., 1998; SHORES, 1998; SHORES, 1997).
O presente trabalho relata alguns esforços de organizações governamentais, comerciais e não-comerciais de estabelecer critérios e regulamentações para a prática ambientalmente saudável e ética do ecoturismo.
2. Definição do termo ecoturismo
A Figura 1 mostra, de forma simplificada, uma segmentação do mercado turístico:

Como pode ser visto, o ecoturismo faz parte do segmento "viagens especializadas ligadas à natureza" ao lado de outras atividades, como observação da flora/fauna, turismo de aventura (p.ex. rafting, montanhismo, cavalgadas), caça/pesca e pesquisa. O ecoturista geralmente participa de uma ou mais destas atividades.
Então, quais são as diferenças entre uma mera "viagem especializada ligada à natureza" e o ecoturismo? Do lado do consumidor, o ecoturista, existe a vontade de aprender sobre o destino visitado, principalmente sobre os aspectos ambientais, culturais, históricos e seus problemas relacionados. O ecoturista tem uma postura favorável à proteção do meio-ambiente o que se reflete no seu comportamento. Ele respeita as condições naturais do lugar e geralmente existe o desejo de contribuir de alguma forma para a conservação do ecossistema visitado.
A operadora de ecoturismo deve satisfazer todos estes desejos do ecoturista. Suas atividades não devem prejudicar o meio-ambiente ou desrespeitar as comunidades locais. Ao contrário, deve haver alguma contribuição positiva para a conservação do lugar visitado ou para o bem-estar da sua população. Esta contribuição pode ser feita em forma de projetos de apoio à comunidade ou para a conservação do meio ambiente.
A definição do termo ecoturismo (e dos seus sinônimos: turismo ecológico; turismo ambiental) varia consideravelmente, mas os pontos mais comuns incluídos nas definições são (SHORES, 1998; WALLACE, 1998; McBRIDE, 1997; McKORMICK, 1997; CASTILHO & HERRSCHER, 1997; WOOD, 1997; ANDERECK, 1995; CARD & VOGELSONG, 1995; NOBRE, 1995; UNIÃO EUROPEIA/EMBRATUR, 1994; EMBRATUR, 1991):
Existe uma série de tentativas de estabelecer diretrizes para operadoras ecoturísticas e/ou a certificação e credenciamento das mesmas (BERLIN DECLARATION, 1998; HEADLY, 1998; HOW GREEN CAN YOU GET? 1998; NORMAN et al., 1998; SHORES, 1998; WALLACE, 1998; WIGHT, 1998; BUCKLEY, 1997; DIST, 1997; DOWLING1, 1997; DOWLING2, 1997; KAYE, 1997; McBRIDE, 1997; McLAREN, 1997; SHORES, 1997; THE ECOTOURISM SOCIETY, 1997; WOOD; 1997; TROUMBIS, 1991). Em seguida serão apresentadas em detalhe algumas das iniciativas mais abrangentes.
Diretrizes da "The Ecotourism Society"
Em 1993, "The Ecotourism Society", uma organização internacional sem fins lucrativos que visa disseminar informações sobre ecoturismo, lançou diretrizes para operadoras de ecoturismo. O livro de 20 páginas contém um resumo das diretrizes e em seguida uma descrição mais detalhada de cada diretriz, de acordo com os seus objetivos, técnicas utilizadas e benefícios ao visitante (NORMAN et al., 1998; THE ECOTOURISM SOCIETY, 1997; WOOD, 1997).
O resumo das diretrizes consiste nos seguintes itens (NORMAN et al. 1998; THE ECOTOURISM SOCIETY, 1997):
Na Austrália, foi lançado, em novembro de 1996, o programa de certificação de ecoturismo (NEAP), desenvolvido pela "Ecotourism Association of Australia" (EAA) em conjunto com a Associação Australiana de operadoras turísticas. O projeto foi criado sob concessão do "Department of Industry, Science and Tourism" e do Conselho de Turismo da Austrália (NORMAN et al.; 1998; DOWLING1, 1997). Faz recomendações sobre a elegibilidade para a certificação, critérios e padrões mínimos que devem ser cumpridos para que uma operadora pode chamar-se de ecoturística (DOWLING1, 1997; WOOD, 1997).
No Código de Práticas para Operadoras de Ecoturismo da "Ecotourism Association of Australia", são listados os itens mais importantes para obter a certificação. O livro com a lista completa dos critérios pode ser adquirido diretamente da "Ecotourism Association of Australia" (PALMER, 1998).
O Código de Práticas para Operadoras de Ecoturismo relaciona, de forma resumida, os seguintes aspectos (EAA, 1998):
Diretrizes da PATA: "The Green Leaf"
A "Pacific Asia Travel Association" (PATA) lançou, em 1992, o código para viagens ambientalmente responsáveis, "The Green Leaf" (PATA1, 1998).
O código recomenda aos membros da associação, obedecer aos seguintes princípios (PATA2, 1998):
OUTRAS DIRETRIZES
SHORES (1997; 1998) propõe uma escala de seis níveis para a classificação do ecoturismo conforme seus impactos ambientais. A escala ainda está numa fase preliminar e não é necessariamente acumulativa:
|
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| CAMPOS AMBIENTAIS |
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| Degradação ou destruição da paisagem natural | |||
| Conservação da vida selvagem | |||
| Tratamento do lixo | |||
| Consumo de água | |||
| Consumo de energia | |||
Com ajuda desta matriz, são avaliados os impactos
ambientais durante as três fases do ciclo de vida do turismo: 1)
durante a fase de construção é implantada a
infra-estrutura turística; 2) na fase da operação,
prevalece o uso desta infra-estrutura; 3) finalmente, na fase da extensão,
ocorrem instalações além das inicialmente planejadas,
o que geralmente causa os maiores danos ambientais. Para a classificação
dos impactos pode ser usado uma escala simples como p.ex. baixo impacto,
impacto moderado e impacto considerável.
CONCLUSÕES
Pelo exposto, fica claro que existe uma preocupação considerável com uma regulamentação das atividades ecoturísticas, seja por motivos éticos ou comerciais. Tal questão torna-se relevante neste mercado, onde muitos consumidores "verdes" levam em consideração o compromisso da operadora com a conservação do meio-ambiente, na decisão da aquisição de um serviço ecoturístico. Vale ressaltar que o cumprimento de todas as regulamentações apresentadas é voluntário, e nenhuma operadora turística é obrigada a segui-las. O controle das atividades das operadoras turísticas deve ser executado por órgãos governamentais de fiscalização dos países onde pratica-se turismo ecológico e/ou por organizações não-governamentais. A criação de um certificado do tipo "selo verde", com critérios bem definidos e a rigorosa fiscalização do cumprimento das obrigações ligadas à obtenção deste selo, seria uma possibilidade de controlar as atividades ecoturísticas em ecossistemas frágeis, oferecendo ao consumidor ambientalmente consciente, uma garantia de que obtém o produto desejado.
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