

SISTEMA EDÁFICO DE PRIMEIRA OCUPAÇÃO
Ao longo do litoral, nas planícies fluviais e ao redor de depressões aluvionares (pântanos, lagunas e lagoas) ocorrem geralmente terrenos instáveis, que são cobertos com vegetação em constante sucessão: terófitos, criptófitos (geófitos e/ou hidrófitos), hemicriptófitos, caméfitos e nanofanerófitos. Esta vegetação de primeira ocupação de caráter edáfico ocupa os terrenos rejuvenescidos por a) seguidas deposições de areias marinhas nas praias e restingas e b) aluviões fluviomarinhas nas embocaduras dos rios e c) os solos ribeirinhos aluviais e lacustres (IBGE, 1992).
Nestes terrenos sujeitos a constantes modificações proliferam plantas pioneiras, capazes de lidar com as condições inóspitas como substrato extremamente árido, seco ou então encharcado ou som salinidade elevada. Estas restrições edáficas forçam uma especialização da vegetação e levam a ecótipos de distribuição universal, como p.ex. os gêneros Remirea nas praias, Salicornia nas áreas psamófilas, Rhizophora e Avicennia nos manguezais e Typha nas áreas pantanosas (VELOSO, RANGEL FILHO e LIMA, 1991).
SISTEMA EDÁFICO DE PRIMEIRA OCUPAÇÃO COM INFLUÊNCIA MARINHA (RESTINGA)
Sobre o termo restinga une-se uma grande variedade de formações vegetais, ela pode ser herbácea, arbustiva ou arbórea. São principalmente estes aspectos geomorfológicos que determinam a estrutura da restinga: fixas paralelas de deposição sucessiva de areia (cordões), lagoas resultantes do fechamento (represamento) de antigas baias, pequenas lagoas formadas entre dunas, dunas resultantes do trabalho eólico sobre a areia das restingas etc. (LEITE, 1994).
Vegetação das praias
Segundo Ferri, citado por RODERJAN & KUNIYOSHI (1988), a vegetação das praias e antedunas é composta por um pequeno grupo de plantas herbáceas com adaptação especial ao ambiente difícil que constantemente sofre a influência do mar. Esta vegetação está perfeitamente adaptada ao solo arenoso, pobre em nutrientes, a insolação forte e ventos fortes. Os membros deste grupo de plantas psamófilas-halófilas que aparecem com mais freqüência são gramíneas (Sporobolus virginicus, Panicum racemosum e Stenotaphrum secundatum), a ciperácea Remirea maritima e a amarantácea Iresine portulacoides.
MAACK (1981) menciona que algumas plantas formam raízes adventícias em caules rastejantes e que são conhecidas como formação pes-caprae. Os representantes mais importantes são a salsa da praia (Ipomoea pes-caprae Sweet), Papil (Canavalia obtusifolia Doc.) e o picão da praia (Acicarpa spathulata R. Br.)
São estes plantas que preparem o terreno para a subsequente fixação das dunas, onde é possível a instalação de uma vegetação lenhosa-arbustiva (RODERJAN & KUNIYOSHI, 1988).
Segundo KUNIYOSHI (1994) esta forma de sucessão nas areias do litoral é chamada de psamosere. As plantas destas comunidades fixam a areia e fornecem material para formação de solos.
Vegetação das dunas e entre as dunas
Quando o terreno atinge alturas de 5 - 7,5 m s.n.m. começam as dunas antigas, já consolidadas por uma vegetação de arbustos de folhas grossas, coriáceas ou carnudas. Predomina a estrutura xerofítica em todas as plantas (MAACK, 1981).
As dunas podem ainda ser classificadas em móveis, semi-fixas e fixas, conforme Ferri, citado por RODERJAN & KUNIYOSHI (1988). Naturalmente o tipo de vegetação varia conforme o tipo de duna. Nas dunas móveis e semi-fixas encontra-se plantas psamófilas, adaptadas à condições severas deste tipo de ambiente com escassez de água, intensa insolação e solos pobres, temperaturas elevadas , ação dos ventos e mobilidade do solo. Os mais freqüentes são salsa da praia (Ipomoea pes-caprae Sweet), Papil (Canavalia obtusifolia Doc.) e as leguminosas picão da praia (Acicarpa spathulata R. Br.) e Sophora tomentosa.
Encontra-se as seguintes espécies nas dunas mais velhas, fixadas: guapê, jacarandá-lombriga (Andira anthelmintica), caúna (Ilex spp), mangue do mato (Clusia criuva).
HUEK (1972) menciona que a colonização natural das dunas ocorre da mesma forma em todas as regiões tropicais ou temporadas e propõe o seguinte modelo:
1. Uma faixa praiana entre beira mar e preamar destituída de vegetação, onde ocorrem algas e sementes de plantas do manguezal.
2. Numa faixa anterior da ante-praia encontra-se algumas poucas gramíneas e outras plantas com raízes longas ou ramificações superficiais.
3. Ocorrência de gramíneas com mais densidade.
4. Arbustos.
5. Formações florestais.
Um modelo diferente sobre a colonização natural das dunas é proposto por FERRI (1980):
1. Antedunas, lugares cobertas periodicamente pelo mar, mostram um teor salino alto, e as plantas são adaptadas a tal situação. Encontra-se psamófitas-hálófitas como Philoxerus portulacoides, Remirea maritima, Sporobolus virginicus, Panicuam racemosum.
2. Atrás das dunas, em lugares mais abrigados com lagoas salgadas, acha-se vegetação halófita como p.ex. Salicornia gaudichaudiana, Sesuvium portulacastrum, e Statice brasiliense.
3. As dunas interiores não sofrem mais a influência direta do mar. Na área de transição entre antedunas e dunas interiores a vegetação é psamófila, mas não mais halófila. Espécies que ocorrem aqui são Hydrocotyle umbellata, Ipomoea pes-caprae, Canavalia obtusifolia, Acicarpha spathulata.
4. Nas dunas interiores há muito pouca mobilidade e uma vegetação xerofítica pode se estabelecer: Sophora tomentosa, Diplothemium maritimum, Cereus peruvianus, Anarcadium occidentale, Crysobalus icaco, Dalbergia hecastophyllum. Encontra-se também orquídeas e bromeliáceas.
5. Nas dunas fixas encontramos uma vegetação mista, com espécies xerófitas e higrófitas. A palavra indígena para este tipo de vegetação, jundu ou nhundu, significa "mata ruim".
Segundo LEITE (1994) encontra-se com freqüência superfícies aplainadas e plano-deprimidas com inúmeras pequenas lagoas entre os cordões das dunas. Geralmente domina uma vegetação herbácea ou gramíneo-lenhosa nestas áreas que são sujeitas a inundações ou encharcamento. Espécies higrófilas adaptadas a este tipo de ambiente são: juncos (Juncus spp.), grama-branca ou capim-das-dunas (Panicum reptans), taboa (Typha domingensis) e rainha-dos-lagos (Pontederia lanceolata). No meio destes banhados muitas vezes existem tesos ou albardões com aglomerações arbóreas ou arbustivas. As espécies predominantes aqui são o vacunzeiro (Allophylus edulis), canela-do-brejo (Ocotea pulchella), tapiá-guaçu (Alchornea triplinervea var. janeirensis), cambuí (Myrcia multiflora), olandi (Calophyllum brasiliense), a cupiúva (Tapirira guaianensis) e a caxeta (Tabebuia cassinoides).
Adaptações vegetais
Os solos arenosos, extremamente permeáveis e pobres em nutrientes, a constante ação do vento e a salinidade, exigem uma especificação de certos órgãos das plantas para elas poderem sobreviver num ambiente tão inóspito. Encontra-se um sistema radicial profundo e bem ramificado, que garante a fixação da planta, além de fornecer mais água e nutrientes, pela área maior de solo que pode ser explorada. As folhas são geralmente pequenas e coriáceas para diminuir a perda de água e como proteção contra a dilaceração pelo vento. As caules são rastejantes, estoloníferos, flutuando sobre a areia e acompanhando as modificações da superfície. Também há caules subterrâneos (rizomas) e folhas carnosas com a finalidade de retenção de água (JOLY, 1970).
A vegetação lenhosa em geral é de baixo porte, possui fustes tortuosos e folhas coriáceas. Isto principalmente em função da ação do vento e do regime hidrológico. As copas são deformadas pelo vento constante.
Segundo JOLY (1970) esta deformação das copas pode ter outro motivo, que trabalha em conjunto com o vento, a maresia. O vento carrega gotas de água marinha, formando uma tênue neblina que se deposita na areia e nas folhas das árvores. As folhas novas e brotos, em direção do mar, morrem em conseqüência de "queimaduras". A copa fica assimétrica, desenvolvendo-se mais em direção oposto ao mar.
Depois que as pioneiras conseguiram se instalar, propiciam o desenvolvimento de outras. Elas dão proteção pela sombra, fixam a areia e fornecem uma maior quantidade de matéria orgânica. Em geral as plantas que seguem as pioneiras tem um porte mais elevado, sombreando as mesmas e condenado as ao desaparecimento, dando seqüência então a sucessão vegetal (JOLY,1970).
Plantas que mudam o seu fenótipo em função da profundidade do lençol freático. Se ele tiver abaixo de 1 metro, a camarinha, Gaylussacia brasilienis, e a vassoura vermelha, Dodonea viscosa, as plantas são altas e bem desenvolvidas. Mas se o lençol freático se aproxima da superfície, as plantas são baixas e mal desenvolvidas.
Solos
Nos cordões consta-se geralmente a presença de areias quartzosas com vários graus de hidromorfismo e acumulo de material orgânico no horizonte A. As areias quartzosas contem mais do que 85 % da fração granulométrica areia, não possuem o horizonte B, o que faz com que a capacidade de retenção de água é muito baixa. Elas são solos pobres, distróficos, contêm baixíssima CTC e muitas vezes são salinas, ocorrendo alta variedade no conteúdo de sal de sódio (RACHWAL & CURCIO,1994; ANDRADE, 1966).
Entre os cordões encontra-se podzóis, hidromórficos ou não. Os podzóis são de textura arenosa e apresentam um horizonte de perda logo abaixo de horizonte A e um horizonte de acumulação de matéria orgânica e/ou sesquióxidos de ferro e de alumínio (Bh ou bir) em profundidade. São mais pobres em nutrientes do que as areias quartzosas. Quando o horizonte Bh ou bir for cimentado, o que geralmente acontece nas bacias, o Podzol pode tornar-se hidromórfico.

Os textos são extraídos de um trabalho maior: Aspectos da vegetação do Sul do Brasil - especialmente do Paraná. Para ver o arquivo inteiro clique no link seguinte. O arquivo é grande, tem 4 MB!!!
ASPECTOS DA VEGETAÇÃO DO SUL DO BRASIL -

Last modified on Saturday, January 22, 2000