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WILLIAM MICHAUD, O PINTOR DE SUPERAGÜI

Realmente a palavra Superagui poderia perfeitamente ser no seu nome, já que foi nessa colônia que passou a maior parte da sua vida, e foi onde realmente construiu sua casa, criou seus filhos, trabalhou e sobretudo desenhou e pintou. No Superagui faleceu e está sepultado. Se nasceu na Suiça tornou-se brasileiro porque amou o Brasil e suas belezas tropicais e rústicas. Veio ao Brasil com 20 anos de idade.

Fez breve estada no interior do Rio de Janeiro onde em contato com um agrimensor aprendeu a desenhar. Chegou ao entre 1852 e 18.54. Nasceu em Vevey, Suiça, à margem do lago de Lehmann (Léman) em 21 de julho de 1829. Sei pai era um pequeno burguês negociante de vinhos e possuía uma magnífica mansão ajardinada com belas árvores. Fez os primeiros estudos em  sua cidade natal e aos 20 anos deixou tudo busca de aventuras. Conseguiu que seus pais permitissem viajar ao Brasil. Mal poderiam imaginar que o jovem jamais regressaria à pátria e jamais veria qualquer parente.

Vevey no século 17

 Em Superagui casou-se com uma nativa de nome Custódia Américo com quem teve nove filhos e filhas. Uma delas, Antonina, casou-se com um filho de Giordano Scinini em 1899.

Auto-retrato de William Michaud

Considerado um grande pintor e desenhista de sua época, além de ter sido escolhido como professor da colônia e também  juiz de paz, Willian Michaud legou-nos com sua obra simples, porém magnífica, um estudo profundo sobre o que era a vida de então no Superagüi. Seus desenhos e aquarelas refletem de forma magistral a paisagem e os costumes ainda que freqüentemente lhe faltava material, para suas pinturas e desenhos, quando a necessidade tomava posse dele não tinha, à mão, os materiais necessários, usava, simplesmente, papel pautado para cartas e produzia, como por encanto, desenhos especialmente bem trabalhados, que parecem gravados em cobre as suas obras surgiram, em grande parte, da necessidade de mostrar a seus irmãos, a falta de uma máquina fotográfica, sua vida de colono e os arredores do local onde vivia: sua casa, a vizinhança, a magia da floresta e do mar. Pode-se deduzir, sobretudo, que ele desejava mostrar aos irmãos e amigos, como estava repleto de satisfação e orgulho.

Michaud foi autodidata, como desenhista e pintor nunca recebeu instrução artística propriamente dita, depois do ensino normal de desenho, na escola. E digno de louvor, pois, o autocontrole do artista que evita fechar os olhos sobre a falta de um estudo profissional, arriscando-se em áreas do desenho que poderiam exigir conhecimentos anatômicos. Tanto mais e admirável a felicidade com que desenha e pinta, tendo a natureza como modelo, tanto quando se trata de sua casa ou de paisagens de trechos da costa ou de agrupamento de domicílios de colonos que ele, desde o barco, sobre o mar, capta ate os mínimos detalhes. Sua oficina é a natureza livre, que a ele oferece em Superagüi qual fonte brotando abundantemente e da qual bebia sem cansar, criando verdadeiras obras-primas. Depois de ter dormido longamente no seu interior. Seu talento rompeu as amarras e alcançou um desenvolvimento inesperado. As aquarelas de Michaud são ricamente coloridas, apesar de ter, normalmente, poucas tintas a disposição. E, aparentemente, não lhe era familiar a técnica de mistura de tintas. Apesar disso, Michaud gostava de usar tintas e pincéis, provavelmente sentindo que todas as gradações do cinzento nunca poderiam exprimir o que estava sentido bem no seu interior e que  procurava mostrar a seus amigos distantes na verdade, ele conseguia criar, com meios modestos, desenhos e pinturas dos quais emana a impressão do milenar e tão diversificado crescimento das árvores e dos arbustos, a riqueza estonteante da floresta virgem, a magia cheia de segredos da paisagem, que ele transformava num magnífico monumento colorido, composto de gradações sutis dos matizes das cores aí pode-se ver como sua alma sensível e seu espírito vivo capacitaram-no para ficar em harmonia com a natureza, a qual se sente intimamente ligado.  Suas cartas, dirigidas as irmãs que haviam permanecido na Europa, são modelos sutileza e de preocupação descritiva e estão cheias de ternura.

Michaud perdeu a mãe e o pai contraiu novas núpcias, profundamente sensível, sentiu-se do novo ambiente e decidiu partir rumo a novos mundos. Assim, a 28 de outubro de 1849, escreveu a sua irmã Emma “quero anunciar-te a minha partida para o Brasil, no dia 6 ou 7 do próximo mês. Dentro de oito dias, partirei, seguramente, para não voltar a verte”.

Chegou no Rio de Janeiro no dia 1 de janeiro de 1829:a 1 de janeiro de 1854 instalou-se na hoje denominada Ponta dos Barbados.

Vários motivos levaram Michaud a ficar em Superagüi, principalmente o casamento com Custodia Américo uma nativa da região, onde ele encontrou um pouco do carinho materno a muito perdido, um outro motivo foi o círculo de amizades formado por imigrantes da sua terra natal. Sobretudo era Louis Durieu, o filho de um padeiro em Vevey e irmão da professora Louise Durieu, que após o falecimento precoce da mãe, dirigia a casa materna. Durieu tinha casado com uma inglesa em Vevey, com a qual tinha seis crianças  e que lhe deu mais três em Superagüi. Ele dispunha de boa quantidade de dinheiro, pois comprou, na baia dos Pinheiros, nos pés dos morros em ambos os lados do rio do Engenho, um terreno maior com uma boa quantidade de mata a situação favorável de água convidava a instalação de pequenas industrias assim logo nasceram uma serraria e um engenho de açúcar. As relações de vizinhança e amizade tornaram-se de parentesco quando Robert Michaud nascido em 1862 casou com Elise Durieu casamento nasceram Alfred, Cecilia e Eugenia. Como já foi mencionado, Perret-Gentil tinha transferido a administração para Louis Durieu, quando se retirou de Superagüi. Robert tomou conta, mais tarde, da serraria do sogro e prosperou com o comércio de madeira.

         Um outro suíço ou italiano da região do lago de Como, Giovanni Batista Rovero, pertencia igualmente ao círculo mais estreito de amigos Rovero, mencionado junto com Tessino Tamagno no relatório que Perret-Gentil tinha dirigido, no dia 1 de fevereiro de 1852, a confederação Suíça. Os dois foram os primeiros que empreenderam a produção e exploração industrial da madeira, da qual as florestas de Superagüi eram tão ricas.

         O quarto, da união, era o alsaciano Johann Michael Sigwalt, que se instalou na entrada do canal de Superagüi, no rio das peças com sua forja e serralheria, desde o início revelou-se um membro útil da colonia e a sua disposição de ajudar deu-lhe a estima geral teve também sucesso com suas videiras e, nisto, serviu de exemplo aos demais. A prova de que ele era estimado por todos esta no fato de que foi proposto como presidente da associação de imigrantes. Como um dos primeiros colonos deve ser citado, ainda, o tessino Giorgiano Scinini, de Sondrio, ele foi um dos primeiros cafeicultores de Superagüi. O casamento do filho mais velho de Scinini com Antônia (nascida 1874), a segunda mais jovem filha de Michaud, em 28 de janeiro de 1899, prova que as famílias mantinham vivo relacionamento. Michaud entregou-se a terra que o acolheu e dela fez a sua pátria, talvez pensando em criar uma nova Suíça, adaptada ao clima e as condições do meio ambiente.

          Cada vez que recebia jornais de seu país era uma alegria, pois eles constituíam o cordão umbilical que os unia: “querida irmã, é necessário que te escreva pelo menos duas palavras, para agradecer-te tuas amáveis remessas de jornais, que me proporcionam um imenso prazer, provando que tu não me esqueceste” por meio de suas cartas, conhecemos a paisagem, a agricultura e os problemas da vida de um colono, ou melhor, dizendo um domador da natureza e de seus elementos.

Carta de 28.12.1884

    “Sabes que estamos no verão, muitas vezes faz um calor sufocante que ocasiona tempestades terríveis; na terça-feira passada tivemos um vendaval tão forte que a maior parte das casas sofreu as conseqüências, as telhas voaram, as árvores foram arrancadas com suas raízes, todas as bananeiras quebradas e os campos de milho destruídos, inclusive os vinhedos atualmente carregados foram por terra: em alguns lugares as estacas foram quebradas pela violência do furacão; apesar destes ventos, os cafeeiros nada sofreram e estão cobertos de flores, inclusive nos bosques não se vê a não ser flores, certas espécies florescem mais cedo, outras mais tarde, e com isto temos, quase o ano todo flores e frutos. Atualmente, as matas estão cobertas de flores violetas, vermelhas, brancas, amarelas, e, ao penetrarmos nos bosques, encontramos muitas árvores cobertas de frutos, e que portanto haviam florescido antes: se poderia crer que estamos no paraíso, os cafeeiros, florescem após o mês de maio e não acabamos de recolher a colheita do ano passado até o mês de outubro, de modo que, ao colher os frutos maduros, os cafeeiros já estão cheios de flores e brotos.

Casa do Michaud

As vinhas estão carregadas de frutos que começam a amadurecer, a vindima será em janeiro, temos cana-de-açúcar o ano todo, também as bananas, de abril a setembro são as laranjas e outras frutas; portanto, vez que, neste país privilegiado, as flores e os frutos se sucedem sem interrupção o ano todo. Mas, também existe o reverso da medalha: as febres intermitentes (que não existem quase sobre as mesetas do interior), a dificuldade da criação do gado, por causa dos “vampiros” (morcegos) que chupam o sangue dos animais, ocasionando-se úlceras, onde as moscas depositam suas larvas. Também deve-se pensar em um país onde não faz frio, nem inverno, o verde é constante, as ervas daninhas crescem com um vigor desconhecido na Europa, sendo o principal trabalho do agricultor arrancá-las, secando-as e deixando sobre o terreno, formando uma cobertura vegetal, pois, se não são extirpadas, asfixiam as plantas que nada produzem; apesar de todos estes inconvenientes e de outros, este é um paraíso para as pessoas pobres, honradas e trabalhadoras, que vivem em abundância e não temem os longos invernos da Europa, tão frios e terríveis para os pobre.

Michaud também fala em suas cartas do problema sócio - político colocado pela colonização:

“O governo procura todos os dias meios para estimular a imigração, creio que vai ser estabelecido um cadastro de terras e decretadas algumas leis que favorecerão esta imigração, como a nacionalização, a liberdade religiosa, o casamento civil, etc”.

Este homem que possuía uma educação adquirida em seu país natal colocá-la à disposição da nova pátria.

         “Tu sabes que sou mestre-escola desde março de 1883, tenho atualmente uma quarentena de rapazes de 8 a 15 anos; todo o ensino é dado naturalmente em língua portuguesa, cousa que veras pelos erros de  que provavelmente contém estas cartas, pois quase esqueci o francês. Michaud deseja criar um novo mundo, algo que se retenha e não possa ser destruído por um simples carnaval iconoclasta: ensino meus filhos durante as noites, e meu filho José ajuda-me na escola como instrutor; o maior, Robert, desde que me coloquei a frente da escola, encontra-se na direção dos trabalhos rurais com minha mulher e meus filhos; Locadia, a segunda, casou-se faz pouco tempo, e Elisa deverá casar-se, seguramente, dentro de dois ou três meses; podes imaginar que para liqüidar todos estes assuntos de família a necessidade que há de dinheiro; minha filha Julia, a quarta, está noiva, não sei quando se casará, ainda assim me restarão três filhas, Maria Joana, de 17 anos, Antônia de 11 anos, e a última, Ana, de 8 anos. Nos chamávamos as duas últimas de “as duas pequenas”, como outrora chamávamos Elise, Cecile e tu, “les trois petites”.

Com todos os problemas que pode criar a vida em natureza, os laços familiares permanecem firmes apesar da distância e do tempo:

“Meu amigo Louis Durieu enviara a sua irmã Louise um saco de café, eu remeto 10 quilos que ela te entregara e tu repartiras com tua irmã Emma, mais tarde se o paladar e o aroma do café te agradarem, poderei enviar-te o quanto quiseres, dentro de um mês ou dois, enviarei também vistas da paisagem”. Hoje, como ontem, a gente de Guaraqueçaba segue a luta, e vê passar entre os labores, os dias e os anos que se escoam, sem maiores resultados que a continuidade em outros, com a esperança de que virão melhores dias para os seus”.

Superagüi, 7 de maio 1899,

Minha querida Emma; Muita água passou pela fonte desde a última carta, a qual muito tardei em responder, cousa que sinto, que em nossa idade não se tem tempo para esperar, e muitas te haverás indagado as razões do meu atraso. Eu sou desgraçadamente, como muita gente, muito preguiçoso para escrever, e, ultimamente, tive muitas contrariedades, sem contar a minha escola. Quando o dia esta declinando me sinto cansado e satisfeito em poder repousar um pouco minha velha cabeça. Faz três dias que temos um tempo horrível, com tempestades e chuvas torrenciais o que impossibilita completamente a freqüência a escola  e disto me aproveito. Outrora, a vida era muito fácil no Superagüi e mesmo agradável, hoje não é mais a mesma coisa; o aumento da população, a escassez de produtos e, como conseqüência, a falta de dinheiro, o aumento gradual dos impostos (a República e um governo mal versador e tem muitos amigos e apetites a satisfazer), o preço crescente dos objetos de primeira necessidade, a vida é difícil e cara. Não temos, como outrora, a abundância de pescados, ostras, caça, etc. Há muita gente, as terras boas começam a faltar e eu me pergunto: o que será do Superagüi dentro de uma dúzia de ano”.

        Em muitas ocasiões, Michaud se vê diante desta realidade, e o passado volta, sentindo nostalgia da Suíça e de outro tempo:

“Eu penso sempre em vocês e desejo-lhes toda a felicidade possível, e, sobre tudo, saúde; em nossa idade é preciso ter cuidado e evitar as mudanças de temperatura para não se resfriar, pois, geralmente, as conseqüências são terríveis. Minha preocupação especial são meus filhos. Eu quisera vê-los sempre alegres e satisfeitos, mas desgraçadamente isto não e possível: na vida sempre existe o bom e o mau mesclados freqüentemente; um ajuda a suportar o outro, facilitando a existência. No que me respeita. Tenho passado bem, mas, querida, o meu bem-estar é a última das minhas preocupações. Todos os meus pensamentos são para eles e para vocês, na Suíça. Como durmo muito pouco e passo a metade da noite acordado, tenho tempo para pensar e refletir sobre tudo o que é, foi ou será, então volto a ver todos os anos passados tão rapidamente que me parece que tudo foi ontem, nossa juventude, nossos divertimentos, nossas alegrias e, mesmo também, nossas tristezas, as ausências, as desgraças, tudo aquilo que afligiu a nossa família, tão numerosa, e hoje tão reduzida”.

Com as convulsões políticas que trazem, como conseqüência, aquelas econômicas, cada vez mais o Superagüi acelerava sua decadência, perdendo pouco a pouco tudo aquilo que havia obtido e construído com trabalho desses imigrantes  que pensaram fazer desse pedaço de terra um mundo melhor para seus descendentes.

Nos dias de velhice ressurgiam, não raramente, recordações melancólicas de sua juventude despreocupada e da vida na casa paterna, onde todas as doçuras estavam a sua disposição. E verdade que, em Superagüi, a natureza oferecia, com generosidade, tudo que era necessário para a vida, mas tiveram que renunciar, ali, a todas as pequenas coisas que conheceram na juventude. Mesmo pão, leite, queijo, etc. Tinham ficado a distância, junto com a civilização. Michaud confessa: “Sempre fui um pouco aristocrata e detesto os democratas exaltados que só pensam em enriquecer. Mesmo que por meios os mais detestáveis”, em outra frase ele demonstra seu descontentamento nesses dias: “Sempre esta solidão, esta monotonia insípida neste Superagüi triste”. “A vida no Superagüi é cada vez mais difícil; nossos produtos não tem nenhum valor, como café, o arroz, as bananas e as laranjas que apodrecem no chão e não vale a pena recolhe-las.... Já não temos agência postal no Superagüi, foi fechada pelo Governo Federal, bem como aquela  da cidade de Guaraqueçaba se encontra vaga, pois o ultimo titular pediu demissão e o outro que foi nomeado não aceitou, uma vez que o pagamento dos empregados era uma miséria; de modo que não posso escrever-lhes a não ser quando houver uma boa ocasião para remeter as cartas por Paranaguá, e não sabemos como, nem por quem receberemos as suas, é triste”. Em mais uma de suas reflexões Michaud diz: “Os conhecidos e amigos que se vão nos advertem de que estamos prestes a ir também... Mas a questão não é morrer, é saber como e de que vamos morrer. Seria preferível não pensar nisto”.

Assim se vai consumindo uma vida e em 8 de maio de 1902, ano em que morreu Michaud escreveu a sua irmã Mary: “Não tenho estado apenas indisposto, mas muito doente, com febre, e tenho passado noites horríveis numa espécie de delírio indescritível. No final de abril, nos últimos dias do mês, meu amigo Sigwalt conseguiu cortar a febre com medicamentos homeopáticos que continuo tomando, porém, estou muito enfraquecido, porque não tenho comido quase nada (minha alimentação consistia de vez em quando um caldo de galinha), porque não posso suportar nenhum alimento”. Hoje, seus restos encontram-se sob a terra e a vegetação do cemitério do Superagüi, as margens do canal que muitas vezes percorreu até sua última viagem.

Texto extraído de: Leonidas Boutin: Superagui. 1983 e Emílio Scherer: Michaud, o pintor de Superagui. Ambas publicações estão disponíveis na Biblioteca Pública de Curitiba.

(Obs: a ortografia está como no original)

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Last modified on Friday, april 05, 2002