Publicado em:

Niefer, I. A.; Silva, J. C. L. G. da; Amend, M. Ecoturistas ou não? Análise preliminar dos visitantes do Parque Nacional de Superagüi. Turismo - Visão e Ação, ISSN 1415-6393, ano 3, n.6, abr/set 2000, p.49-68, 2000.

 

 

ECOTURISTAS OU NÃO? ANÁLISE PRELIMINAR DOS VISITANTES DO PARQUE NACIONAL DE SUPERAGÜI[1]

 

Autores:

 

INGE ANDREA NIEFER[2];

JOÃO CARLOS GARZEL LEODORO DA SILVA[3];

MARCOS AMEND[4].

 

Resumo

 

O presente trabalho consiste na análise do perfil dos visitantes do Parque Nacional de Superagüi, situado no litoral norte do Estado do Paraná. Foram analisadas 94 entrevistas, realizadas durante a temporada 1998/1999. Verificou-se que a maior parte dos visitantes pode ser considerada como “ecoturista”, pois o seu perfil encaixa-se dentro do comumente proposto na literatura. Preferências relativas a atividades e infra-estrutura, assim como críticas, são indicadores valiosos para o futuro manejo do Parque.

 

Abstract

 

The present work consists of the analysis of the visitors’ profile of the Superagüi National Park, located in the north coast of the State of Paraná, Brazil. 94 interviews were analyzed which were conducted during the season 1998/1999. It was verified that most of the visitors can be considered as "ecotourists", because their profile fits to the one commonly proposed in literature. Visitors’ preferences related to activities and infrastructure and critics are valuable indicators for the park’s future management.

 

Palavras-chave: ecoturismo, parque nacional, Superagüi, ecoturista, perfil de visitante.

Keywords: ecotourism, national park, Superagüi, ecotourist, visitors’ profile.


 

Introdução

O Parque Nacional de Superagüi localiza-se no norte do estado do Paraná, junto à divisa com o estado de São Paulo (Fig. 1). Foi criado em 1989, com uma área inicial de cerca de 21400 ha. Em 1999 ocorreu uma demarcação e a área aumentou para cerca de 34000 ha. Inclui principalmente a Ilha do Superagüi, a Ilha das Peças, a Ilha de Pinheiro e a Ilha do Pinheirinho. Foram incluídos ainda o vale do Rio dos Patos no continente e o Canal do Varadouro, que separa a Ilha do Superagüi do continente. 

O Parque Nacional faz parte do complexo estuário da Cananéia, Iguape e Paranaguá. Em 1991 ele foi declarado Reserva da Biosfera pela UNESCO (SPVS, 1992) e, sob ponto de vista de suplemento alimentar, é uma das áreas mais importantes do país. Recentemente, em dezembro de 1999, o parque foi declarado patrimônio natural da humanidade (UNESCO, 1999).

Abriga baías, praias desertas, restingas, manguezais e várias formações florestais de Floresta Atlântica. Várias espécies animais, algumas delas raras ou ameaçadas de extinção, como o papagaio chauá ou papagaio-da-cara-roxa (Amazona brasiliensis), o mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara) e o jacaré-de-papo-amarelo, vivem dentro dos seus limites.

O parque ainda não possui uma infra-estrutura turística organizada, nem existe um plano de manejo. Atualmente, existem oito pousadas, quatro restaurantes e um camping na comunidade da Barra do Superagüi, onde a pesquisa foi conduzida. Não há transporte marítimo regular, sendo necessário fretar barcos particulares para chegar ao local.

A demanda turística ainda é relativamente pequena, mas em conseqüência da instalação de eletricidade no final do ano 1998 e da proximidade do parque a dois grandes centros urbanos, Curitiba e São Paulo, é provável que a demanda aumente consideravelmente num futuro próximo, o que torna urgente um programa de planejamento turístico.

 


 

FIGURA 1: LOCALIZAÇÃO DO PARQUE NACIONAL DE SUPERAGÜI

 

Revisão de literatura

A EMBRATUR (1994) define ecoturismo como “um segmento da atividade turística que usa de uma forma sustentável o patrimônio natural e cultural, motivando a sua conservação e incentivando a formação de uma consciência ambiental pela interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvidas”.

VALENTINE (1993) destaca quatro componentes importantes do ecoturismo: 1) ser baseado em áreas naturais relativamente pouco perturbadas; 2) não causar danos, não degradar e ser ecologicamente sustentável; 3) contribuir diretamente para a proteção e o manejo contínuo da área natural usada; 4) ser sujeito a um regime de manejo adequado e apropriado.

Nem todas as formas de ecoturismo são sustentáveis, assim WIGHT (1993) aponta que não é a definição o mais importante, mas os princípios básicos e valores éticos em relação à conservação/sustentabilidade e comunidades locais.

NIEFER & GARZEL (1999) salientam a importância da existência de códigos de ética das próprias operadoras ecoturísticas e a criação de “selos verdes”, para que o turista possa escolher empreendimentos que trabalham de forma sustentável, já que ainda não existe uma definição operacional para o termo “ecoturismo”.

CEBALLOS-LASCURÁIN (1998, p.8) destaca que o termo ecoturismo somente deveria ser usado se: a) a atividade turística acontece num ambiente natural; b) encoraja a conservação e c) ajuda a sociedade a alcançar um desenvolvimento sustentável.

De acordo com OFFICE OF NATIONAL TOURISM (1997), os ecoturistas geralmente parecem procurar experiências de viagem que envolvem áreas ou atrações de beleza natural, grupos pequenos, distância de massas, algum nível de interação com o meio ambiente, interação com outras pessoas (de preferência compatíveis e de opiniões semelhantes), algum grau de informação e aprendizagem, diversão e prazer.

EAGLES & CASCAGNETTE (1995) definem um ecoturista simplesmente como um adulto que viaja com a intenção de observar, sentir e aprender sobre a natureza.   

WEILER & RICHINS (1995) propõem um modelo tri-dimensional do conceito ecoturista: o nível de responsabilidade ambiental ou o impacto; o nível de intensidade de interação com o meio ambiente; o nível de dificuldade física ou o desafio da experiência. Os tipos de ecoturistas variam de "ecoturista mínimo" até "ecoturista extremo", de acordo com o grau que ele assume nestes níveis.

Existem alguns estudos sobre o perfil de ecoturistas, sendo a maioria deles limitada a visitantes de certas áreas ou origem. WIGHT (1996a; 1996b), por exemplo, analisou o mercado ecoturístico norte-americano. EAGLES (1992) e EAGLES & CASCAGNETTE (1995) investigaram as motivações e o perfil de ecoturistas canadenses. WEILER E RICHINS (1995) pesquisaram os participantes de expedições da “Earthwatch” e CASE (1994) estudou visitantes da República Dominicana.

 

Metodologia

Foi elaborado um questionário com 37 questões.  Sua aplicação inicial ocorreu entre dezembro 1998 e janeiro de 1999, na comunidade da Barra do Superagüi, como parte de um projeto piloto para levantamento de dados em três áreas protegidas no estado do Paraná: Parque Nacional de Superagüi, Estação Ecológica Ilha do Mel e APA de Guaraqueçaba.  

Os respondentes foram escolhidos ao acaso e entrevistados pessoalmente. A duração da entrevista foi em média de 30 minutos. Foram feitas 94 entrevistas na fase piloto.

Os resultados foram tabulados, sendo utilizados a média e o desvio padrão (s) para análise.

Não existem pesquisas mais extensas sobre perfis de visitantes no Brasil, pelo menos em áreas protegidas.

Uma das hipóteses do estudo foi que os visitantes do Parque Nacional de Superagüi podem ser considerados como ecoturistas, como definido na literatura.

 

Resultados

Idade

 

Os visitantes, a maioria com idade superior a 20 anos, assim se distribuíam: 50% encontram-se no grupo de idade de 20 – 29 anos; 29% tinham entre 30 e 39 anos e 15% tinham entre 40 e 49 anos. Somente 6% dos visitantes eram jovens com menos de 20 anos de idade (Fig. 2), o que pode indicar que este tipo de viagem é pouco atrativo para esta faixa etária.

FIGURA 2: CLASSES DE IDADE DOS VISITANTES DE SUPERAGÜI

 

Sexo

 

51% dos visitantes eram do sexo masculino e 49% eram do sexo feminino, demonstrando que não existe uma clara preferência para a visitação do parque relacionada ao sexo.

 

Grau de escolaridade

 

Verifica-se na tabela 1 que a maioria absoluta dos visitantes, 53,19 % tinha pelo menos superior completo, o que indica que o nível de escolaridade é fator de preferência na visita ao parque.

 

TABELA 1: GRAU DE ESCOLARIDADE DOS VISITANTES DE SUPERAGÜI

 

Escolaridade

Freqüência

%

3º Grau completo

44

46,81

2º Grau completo

34

36,17

Mestrado completo

5

5,32

2º Grau incompleto

5

5,32

1º Grau completo

4

4,26

Doutorado completo

1

1,06

1º Grau incompleto

1

1,06

 

Renda familiar

 

O IBGE usa uma escala diferente para mensurar a renda familiar, assim os resultados da pesquisa não podem ser comparados diretamente com os dados do censo. Porém, pode-se afirmar que a renda familiar dos visitantes é claramente mais alta do que a renda familiar média no Brasil (Tab. 2). Um percentual bem elevado dos visitantes do parque, 41,48%, dispõe de uma renda acima de R$ 2000,00. Segundo o IBGE (1997) 52,1% dos brasileiros ganham até R$ 600,00, 21% entre R$ 600,00 e 1200,00, 12,5% ganham entre R$ 1200,00 e 2400,00 e somente 8,4% ganham mais do que R$ 2400,00 .

 

TABELA 2: RENDA FAMILIAR MÉDIA DOS VISITANTES DE SUPERAGÜI (EM REAIS)

 

 

Renda familiar média

($R)

Freqüência

%*

R$ 1001 a R$ 2000

34

36,17

até R$ 1000

21

22,34

R$ 2001 a R$ 3000

19

20,21

Acima de R$ 4000

14

14,89

R$ 3001 a R$ 4000

6

6,38

*Soma das percentagens diversa de 100% devido ao arredondamento.

 

Estado civil

 

Cerca de 60% dos respondentes eram solteiros e 34% casados, o que indica claramente a preferência dos primeiros por realizar uma viagem deste tipo (Fig. 3).

 

*Soma das percentagens diversa de 100% devido ao arredondamento.

 

FIGURA 3: ESTADO CIVIL DOS VISITANTES DE SUPERAGÜI

 

Forma de viajar

 

Como demonstrado na tabela 3, a maioria dos visitantes viaja com amigos (37%) ou como casal (35%). Um fato interessante é que somente 5% dos turistas viajam sozinhos, embora 60% deles sejam solteiros.

 

TABELA 3: FORMA DE VIAJAR DOS VISITANTES DE SUPERAGÜI

 

Forma de viajar

Freqüência

%

Com Amigos

35

37,23

Casal

33

35,11

Com a Família

11

11,7

Excursão, mas junto com amigos

6

6,38

Sozinho

5

5,32

Excursão

2

2,13

Casal viajando com amigos

2

2,13

 

Origem dos visitantes

 

A maioria dos visitantes (61,7%) mora no estado do Paraná e 22,32% no estado de São Paulo (Tab. 4). A tabela 5 mostra as distâncias entre as cidades de origem dos visitantes e Superagüi.

É interessante verificar que a menor freqüência de visitantes se encontra entre aqueles cujas cidades de origem distam de 200 a 500 km do Parque Nacional de Superagüi. Este resultado não é explicado por não existirem cidades nesta distância. Possivelmente uma amostra maior mostraria freqüência mais alta nesta classe.

 

TABELA 4: CIDADE E ESTADO DE ORIGEM DOS VISITANTES DE SUPERAGÜI

 

Cidade de origem

Estado de origem

Freqüência

%*

Curitiba

PR

52

55,32

São Paulo

SP

10

10,64

Porto Alegre

RS

4

4,26

Londrina

PR

4

4,26

Itajaí

SC

3

3,19

Sorocaba

SP

2

2,13

Catanduva

SP

2

2,13

Belo Horizonte

MG

2

2,13

São José do Rio Preto

SP

1

1,06

Embu das Artes

SP

1

1,06

Ribeirão Preto

SP

1

1,06

Campinas

SP

1

1,06

Piracicaba

SP

1

1,06

Nazaré Paulista

SP

1

1,06

Paraguaçu Paulista

SP

1

1,06

Pelotas

RS

1

1,06

Niterói

RJ

1

1,06

Paranaguá

PR

1

1,06

Maringá

PR

1

1,06

Lavras

MG

1

1,06

Vila Velha

ES

1

1,06

Vitória

ES

1

1,06

Würzburg – Alemanha

-

1

1,06

*Soma das percentagens diversa de 100% devido ao arredondamento.

 

 

Observa-se também que, apesar da região ser reconhecida pela UNESCO, no período da realização da pesquisa, foi pequeno o afluxo de turistas estrangeiros, somente 1,06%.

Apesar do reconhecido afluxo de turistas dos países do Mercosul, principalmente da Argentina, nenhum dos respondentes do questionário precedia desses países.

 

TABELA 5: DISTRIBUIÇÃO DA FREQÜÊNCIA DOS VISITANTES DE SUPERAGÜI, SEGUNDO A DISTÂNCIA DAS CIDADES DE ORIGEM

 

Distância da cidade de origem

de Superagüi

Freqüência

%

Até 200 km

53

56,38

500 – 800 km

21

22,34

800 - 1100 km

10

10,64

Mais do que 1100 km

6

6,38

200 – 500 km

4

4,26

 

Objetivo da viagem

 

O principal objetivo da viagem para Superagüi foi turismo (93%). Alguns dos respondentes visitaram Superagüi para realizar pesquisas científicas e  para fazer turismo ao mesmo tempo (4%), alguns somente por causa de pesquisa científica (2%), e 1% por causa de turismo e para realizar algum tipo de trabalho.

Gastos

 

Calculou-se o gasto médio por dia/pessoa, através dos gastos com transporte, hospedagem, alimentação, lembranças e outros (incluí passeios, iscas para pescaria etc.). Como mostra a tabela 6, o gasto médio por dia e pessoa foi de R$ 35,75. O custo do transporte foi responsável pela maior parte do gasto. O alto desvio padrão pode ser explicado pela diferença dos custos de viagem de acordo com a distância percorrida até Superagüi.


TABELA 6: MÉDIA DE GASTOS POR PESSOA/DIA DOS VISITANTES DE SUPERAGÜI (EM REAIS)

 

Tipo de gasto

Média de gasto/pessoa/dia ($R)

s

Transporte

16,21

19,27

Alimentação

9,47

5,42

Hospedagem

7,20

5,70

Outros

2,46

3,79

Lembranças

0,41

0,96

Total

35,75

23,96

 

 

Pediu-se aos respondentes para avaliar os preços dos serviços usados durante a viagem, conforme a seguinte escala: 5=muito alto, 4= alto, 3= justo, 2= baixo, 1= muito baixo. O item transporte aqui se refere somente ao transporte marítimo até Superagüi. O número de respondentes destes itens é menor do que o número total dos entrevistados (94), pois não houve contagem quando o respondente não sabia o preço de algum item .

Os valores médios das respostas podem ser vistos na tabela 7. Transporte e passeios foram considerados caros, os preços da alimentação justos, e o preço da hospedagem abaixo do justo.

 

TABELA 7: AVALIAÇÃO DOS PREÇOS DOS SERVIÇOS UTILIZADOS PELOS VISITANTES DE SUPERAGÜI

 

Item

Freqüência*

Média

s

Transporte

86

3,59

0,74

Passeios