A VEGETAÇÃO NO PARQUE NACIONAL DO SUPERAGÜI – TIPOS, DINÂMICA E RELAÇÕES COM O MEIO AMBIENTE

 Christoph Bernhard Jaster

Eng. Florestal M. Sc., Pós-Graduação Eng. Florestal / Manejo Florestal, christoph@mais.sul.com.br

 

Introdução

Dentre os diversos componentes que formam o ambiente natural, a vegetação tem sido considerada como um dos principais indicadores, não somente das condições naturais do meio ambiente, como também do estado de conservação dos próprios ecossistemas. Há uma estreita relação entre a vegetação e o meio ambiente como um todo. Tanto fatores abióticos (clima, solo, etc.), como biológicos e antrópicos exercem influência e determinam, em maior ou menor grau, o desenvolvimento da vegetação. As diferentes comunidades vegetais presentes em uma determinada área serão sempre um resultado da ação conjunta destes fatores. Os de ordem natural irão determinar as formações vegetais características para uma certa região. Já os fatores antrópicos (desmatamentos, expansão urbana, poluição, etc.), via de regra irão determinar o grau de alteração da vegetação natural, chegando mesmo a substituí-la, como no caso dos reflorestamentos e da atividade agropecuária.

Em virtude do grande poder de resposta da vegetação frente às condições do meio, a mesma pode ser vista como o porta-voz da natureza. É certo que a comunicação se dá em uma linguagem própria, nem sempre fácil de ser compreendida, mas cabe ao pesquisador da área biológica interpretá-la.

Freqüentemente o bom estado da vegetação natural de uma região tem sido o principal argumento para a criação de Unidades de Conservação em todo o país. No caso dos Parques Nacionais, além de belezas cênicas naturais, quase sempre a qualidade de conservação da cobertura vegetal foi co-determinante na criação dos mesmos. Exemplos disso, em nosso Estado, podem ser considerados o Parque Nacional do Superagüi e as outras Unidades de Conservação criadas na região litorânea, em função da mesma ser detentora de um dos mais significativos remanescentes de Floresta Atlântica do Brasil. A área relativa ao Parque Nacional do Superagüi também foi submetida a processos de exploração no passado, porém com menor grau de intensidade, o que permitiu que a vegetação mantivesse características razoavelmente próximas do natural. Assim sendo, as diferenças observadas na mesma podem ser atribuídas, de uma maneira geral, aos fatores naturais do meio. Principalmente os de ordem geomorfológica exerceram e exercem uma grande influência no desenvolvimento da floresta e demais formas de vegetação.

Os principais tipos de ambiente

A área do parque compreende pelo menos três situações distintas: áreas de encosta de morros e/ou serras, planícies de restinga e áreas marginais no interior da baía sujeitas à influência direta das marés.

As áreas de encosta correspondem àquelas da bacia do Rio dos Patos, na porção continental do parque, e, nas ilhas, aos morros isolados presentes na porção oeste da Ilha do Superagüi. Geologicamente as áreas de encosta são formadas por blocos de rocha muito antigos, principalmente migmatito e gnaisse, apresentando solos do tipo Podzólicos e Cambissolos (EMBRAPA, 1977).

Já as planícies de restinga compõem um ambiente muito diferenciado daquele dos morros. Sua formação, ocorrida basicamente durante o período Quaternário, se deve a processos de deposição de sedimentos marinhos, principalmente areia quartzosa. Esta deposição ocorreu seqüencialmente ao longo do tempo, de modo que as porções mais interioranas das ilhas compreendem ambientes mais antigos do que aqueles localizados próximos à orla marinha. A planície de restinga apresenta, portanto, uma seqüência cronológica do substrato com o aumento da distância para o mar. Além disso é necessário diferenciar entre os sedimentos pleistocênicos (mais antigos), geralmente encontrados nas porções mais afastados do mar, e os holocênicos (mais jovens), que compõem toda a faixa frontal das planícies de restinga, junto à orla marinha. A variação do nível do mar em escala geológica (transgressões e regressões marinhas) também influenciou a formação destes ambientes.

Entre os solos das planícies de restinga predominam podzóis de textura arenosa (EMBRAPA, 1977) com variações em função da disponibilidade de água e da altura do lençol freático, por sua vez dependentes do micro-relevo. Este é determinado principalmente pela existência de dunas paralelas à costa, denominados cordões litorâneos. A planície de restinga é, portanto, caracterizada por diferentes tipos de micro-ambientes, como os topos dos cordões (áreas mais secas) e os inter-cordões (terrenos úmidos ou inundados).

            Um terceiro tipo de ambiente é observado nas margens interioranas da baía, onde a água doce dos rios se mistura com a água salgada do mar, em locais sujeitos ao fluxo e refluxo das marés. A ação erosiva das águas é baixa, permitindo o aporte de sedimento lodoso, dando origem a ecossistemas altamente especializados, os manguezais.

A vegetação

O tipo de vegetação popularmente conhecido por “Floresta Atlântica” engloba, na realidade, um amplo conjunto de situações diferenciadas. O sistema de classificação da vegetação adotado pelo IBGE (1992), pelo qual a Floresta Atlântica é tratada como “classe de formações” Floresta Ombrófila Densa, procura ordenar os diversos tipos segundo critérios fisionômico-ecológicos, dividindo-os basicamente em duas situações distintas: a) o conjunto de formações da Floresta Ombrófila Densa, e b) formações pioneiras. O primeiro grupo representa a vegetação típica para um determinado macro-clima, sendo que as comunidades encontram-se em estágio de clímax climático ou têm potencial para atingí-lo. Também pode ser denominada de vegetação zonal. O segundo grupo é formado por comunidades cujo desenvolvimento é limitado por algum fator do meio, como condições extremas de solo, topografia, inundações periódicas, etc., também denominado de vegetação azonal ou em clímax edáfico. Nessa abordagem não são consideradas as características de origem antrópica. A tabela abaixo mostra os principais tipos de vegetação ocorrentes no Parque Nacional do Superagüi, segundo o sistema de classificação do IBGE.

 

Tipo e condição ecológica

Formação

Ocorrência

Formações Pioneiras

(veg. Azonal / clímax edáfico ou em sucessão primária)

F. P. Sob Influência Marinha, Vegetação de Restinga senso stricto

porções mais recentes das planícies de restinga, em áreas mais próximas do mar

F. P. Sob Influência Fluvial ou “caxetais” com Tabebuia cassinoides

ambientes úmidos, inundados ou próximos aos rios

F. P. Sob Influência Flúvio-marinha ou “manguezais”

áreas marginais do interior da baías influenciadas pela maré

Floresta Ombrófila Densa (veg. Zonal / clímax climático ou em sucessão secundária)

Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas

porções mais antigas das planícies de restinga

Floresta Ombrófila Densa Submontana

terrenos de encosta ou no sopé das serras

 

            Em função de sua grande diversidade de ambientes, o Parque Nacional do Superagüi é detentor de uma ampla variedade de tipos de vegetação. A figura abaixo mostra esquematicamente as principais tipologias vegetais ocorrentes em um trecho da Ilha do Superagüi.

 

fonte: Jaster (1995)

O ambiente de restinga é caracterizado pela grande heterogeneidade verificada na vegetação. As comunidades vegetais ali presentes encontram-se em sucessão primária, iniciada após o surgimento do substrato sedimentar da planície de restinga. Partindo-se da praia ao interior da ilha, é possível observar uma nítida alteração das características fisionômica, florísticas e estruturais. Via de regra ocorre um aumento do número de espécies, do porte das árvores, da definição dos estratos arbóreos, da altura do dossel da floresta e dos parâmetros estruturais de uma forma geral. Normalmente a variação é contínua, em forma de gradiente, exceto quando são verificadas alterações bruscas nas características do meio. Os fatores que determinam este gradiente são de origem abiótica, principalmente ligados ao grau de evolução do solo, mas também à influência (decrescente) da maresia, do vento, etc. No ambiente de restinga as áreas úmidas ou inundadas mais próximas do mar são dominadas por brejos herbáceos. Já nas mais afastadas ocorre vegetação lenhosa, a Formação Pioneira sob Influência Fluvial (caxetal), caracterizada pela caxeta (Tabebuia cassinoides), guanandi (Calophyllum brasiliense) e várias espécies da família Myrtaceae. As áreas mais secas da Restinga são dominadas pela cupiúva (Tapirira guianensis), pinta-noiva (Ternstroemia brasiliensis), guanandi, caúnas (Ilex spp), canela-lageana (Ocotea pulchella), capororoca (Rapanea venosa) e várias Myrtaceae.

            Ainda fazendo parte das Formações Pioneiras, os manguezais (ou Formação Pioneira sob Influência Flúvio-Marinha) são um tipo de vegetação altamente adaptado às condições adversas do meio. Encontrados nas margens do interior das baías, são periodicamente inundados pelas águas salobras das marés. Estas condições extremas determinam o baixo nível estrutural e a baixa diversidade florística dos manguezais, que são formados por apenas três espécies arbóreas: mangue-vermelho (Rhizophora mangle), mangue-branco (Laguncularia racemosa) e siriúba (Avicennia schaueriana).

A porção mais antiga da planície de restinga, principalmente aquela dos sedimentos pleistocênicos, é dominada pela Floresta Ombrófila Densa das Terras Baixas, mais evoluída e homogênea do que as formações pioneiras. A área do Parque, é composta em sua maior parte por uma vegetação secundária (em função de atividades de exploração seletiva ou mesmo cortes rasos em algumas áreas ocorridos no passado) em estágio avançado. Apresenta porte avantajado, alta diversidade e grande semelhança fisionômica com a vegetação primitiva. Algumas das espécies dominantes são cupiúva, guanandi, tabocuva (Pera glabrata), canelas (Ocotea spp), tapiá (Alchornea triplinervia), caúnas, mangue-do-mato (Clusia criuva), etc., além de várias espécies das famílias Euphorbiaceae, Arecaceae, Myrtaceae e Lauraceae.

            A Floresta Ombrófila Densa Submontana é a floresta que domina as áreas de encosta existentes no Parque Nacional do Superagüi. É uma floresta imponente e exuberante, com árvores que freqüentemente ultrapassam 20 metros de altura. A diversidade florística é alta, sendo que algumas das espécies mais expressivas são guapuruvú (Schizolobium parahyba), maçaranduba (Manilkara subsericea), bocuva (Virola bicuhyba), jequitibá (Cariniana estrellensis), canelas (Ocotea spp), palmito (Euterpe edulis), urucurana (Hyeronima alchorneoides), além de muitas espécies das famílias Moraceae, Rubiaceae Myrtaceae e Euphorbiaceae.

            A vegetação do Parque Nacional do Superagüi reflete fielmente a grande diversidade dos fatores do meio e a variedade de micro-ambientes. O desenvolvimento da cobertura vegetal caminha lado a lado com a dinâmica geomorfológica do ambiente, o que torna esta região particularmente interessante para estudos de sucessão vegetal. Em função do bom estado de conservação dos ecossistemas, a área do parque constitui um verdadeiro laboratório de pesquisa para as mais diferentes áreas das ciências naturais.

Bibliografia consultada

EMBRAPA - Empresa Brasileira De Pesquisa Agropecuária: Levantamento de Reconhecimento dos Solos do Litoral do Estado do Paraná. S.N.L.C.S./EMBRAPA. Curitiba/PR. 1977. 127 p.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística: Manual técnico da vegetação brasileira. Manuais técnicos em geociências, 1. Rio de Janeiro. 1992. 91 p.

Jaster, C. B. Análise Estrutural de Algumas Comunidades Florestais no Litoral do Estado do Paraná, na Área de Domínio da Floresta Ombrófila Densa – Floresta Atlântica. Dissertação de Mestrado (versão traduzida para a língua portuguesa). Forstwissenschaftlicher Fachbereich, Abt. Tropen-Subtropen. Georg-August-Universität Göttingen. Göttingen, Alemanha. 1995. 116 p.


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